Enquanto o Governo anuncia avanços na rede, pacientes continuam enfrentando dias ou semanas de espera por transferência, em um problema que há anos desafia a saúde pública baiana.
A espera por uma vaga hospitalar voltou a fazer parte da rotina de famílias do interior da Bahia. Nas últimas semanas, pelo menos quatro casos acompanhados ou recebidos pela imprensa regional mostram pacientes internados em unidades de menor complexidade aguardando transferência para hospitais onde possam receber atendimento especializado.
São histórias diferentes, mas com um ponto em comum: a espera pela regulação.
Em Mutuípe, Ivanildes Ferreira dos Santos, de 61 anos, está internada no Hospital e Maternidade Clélia Rebouças desde 5 de setembro, após ser socorrida pelo Samu. Segundo a família, ela apresentou rebaixamento de consciência, fraqueza, dor e redução da mobilidade. A paciente aguarda transferência para avaliação neurológica, e os familiares relatam piora do quadro entre terça-feira (8) e quarta-feira (9) (Leia a matéria aqui).
Em Jiquiriçá, Manoel Ferreira Torres está internado desde 19 de julho. Segundo a filha, Rosana, o idoso aguarda transferência para atendimento vascular. A família afirma que um dos dedos do pé está necrosado e que outros também começaram a apresentar alterações (Leia a matéria aqui).
Outro caso foi relatado à Vale FM envolvendo Manoel dos Santos, de 58 anos, internado em Conceição do Almeida desde 15 de agosto após apresentar uma infecção no pé. Segundo familiares, exames realizados na rede particular apontaram obstruções nas artérias e o paciente aguarda avaliação especializada (Leia a matéria aqui).
Em Elísio Medrado, José Ângelo de Souza Silva, conhecido como Sr. Zezito, morreu na segunda-feira (7) enquanto aguardava transferência para uma Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), em Santo Antônio de Jesus. O caso foi divulgado por familiares e noticiado por veículos da região (Leia a matéria aqui).
Os quatro casos são diferentes, mas têm o mesmo ponto de tensão: famílias que acompanham pacientes internados enquanto aguardam uma transferência que depende da disponibilidade e dos critérios da regulação.
O Governo da Bahia afirma que os indicadores mais recentes da regulação apresentam melhora.
Segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), 71% dos pacientes regulados em 2025 foram atendidos em até 24 horas, contra 49% em 2022. O percentual chegou a 81% em até 48 horas e a 86% em até 72 horas. A Sesab também informou que mais de 320 mil regulações foram resolvidas em 2025 (Confira aqui).
O Estado também afirma que, nos três primeiros anos da gestão Jerônimo Rodrigues, foram abertos 1.875 novos leitos na rede estadual e contratados outros 3.706 leitos nas redes privada, filantrópica e municipal, totalizando mais de 5.500 leitos.
Em outra publicação oficial, o Governo informou que a Central Estadual de Regulação solucionou 329.679 casos em 2025, com 71,93% dos pacientes regulados em até 24 horas e 86,22% em até 72 horas.
Os números indicam uma melhora em relação aos indicadores de 2022. Mas eles não respondem sozinhos à principal questão enfrentada por quem permanece fora dessas estatísticas de atendimento rápido: quanto tempo os pacientes que não conseguem uma vaga precisam esperar?
É nesse ponto que entra a auditoria do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA).
Segundo a análise divulgada a partir da auditoria, o tempo médio de espera na regulação passou de 1,5 dia em 2019 para 4,7 dias em 2024, um aumento de 213%. O levantamento comparou os períodos de janeiro a agosto de 2019 e o mesmo intervalo de 2024 (Confira aqui) .
A piora não ocorreu em apenas uma área. Das 26 especialidades monitoradas, 14 apresentaram aumento no tempo médio de espera entre os dois períodos.
A cirurgia torácica teve um dos maiores saltos: de 4 dias para 10,4 dias. Também houve aumento em especialidades como hematologia, oncologia, urologia e pneumologia.
O dado é especialmente relevante porque mostra que a expansão da rede e o aumento do número de atendimentos não necessariamente significam que todos os pacientes estejam conseguindo acesso mais rápido ao atendimento de que precisam.
Em dezembro de 2025, ao comentar a auditoria, o governador Jerônimo Rodrigues atribuiu parte do aumento da espera às dificuldades enfrentadas pelos municípios na atenção básica. Segundo ele, pacientes que poderiam ser tratados na rede municipal acabam chegando aos hospitais de maior complexidade, aumentando a pressão sobre a regulação (Confira aqui).
Ao mesmo tempo, o governador reconheceu que a saúde funciona de maneira integrada e que o problema envolve as diferentes esferas do Sistema Único de Saúde (SUS).
A explicação sobre a responsabilidade dos municípios, porém, não altera o resultado encontrado pelo órgão de controle estadual: entre 2019 e 2024, o tempo médio de espera aumentou de 1,5 para 4,7 dias.
Os casos recentes do Vale do Jiquiriçá mostram que, para algumas famílias, a pergunta continua sendo a mesma de anos atrás:
quando a vaga vai chegar?
Enquanto a resposta não vem, o paciente permanece internado, a família espera e o tempo continua correndo.
Redação: Vale FM





