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02/10/2025 10:00

A falas de Jerônimo causaram controvérsia nas áreas de saúde e segurança pública

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), defendeu a regulamentação dos paredões de som e da prática de grau — manobras radicais com motocicletas — desde que aconteçam em locais específicos e com regras bem definidas. A proposta, segundo o petista, teria o intuito de organizar tais atividades de forma que não prejudiquem a convivência social e nem sobrecarregue ainda mais a rede de saúde.

Jerônimo, durante entrevista, destacou que os municípios terão papel central nesse processo, criando espaços próprios destinados a quem deseja realizar as duas atividades:

“Não pode ser feito onde tem pessoas idosas, pessoas com autismo ou adoecidas. Que se crie um ambiente onde só vai quem gosta, como acontece com o futebol em um estádio”.

No caso do grau, o governador lembrou que, quando realizado sem o devido controle, o risco de acidentes se torna alto e impacta diretamente a rede pública de saúde. Para ele, o caminho é tratar a prática como modalidade esportiva, garantindo assim espaços adequados, com a utilização de equipamentos de proteção obrigatórios e mediante fiscalização: 

“Exagerou, há penalidade e  acabou. Dentro do padrão, se encontra o lugar devido”- completou.


Motociclista realiza manobra arriscada em via pública. Foto: Reprodução/ Redes Sociais

Entretanto, cabe aqui um questionamento muito importante: é possível incentivar as duas práticas sem que elas acabem sobrecarregando a rede de saúde estadual? E mais. Seria esse o momento adequado para tal discussão? O tema é polêmico. É sabido que a regulação da pasta da saúde baiana passa, atualmente, por críticas contundentes relacionadas ao atraso nos atendimentos e nos inúmeros relatos de superlotação das unidades, com falta de insumos e até mesmo de atrasos no pagamento dos profissionais de saúde.

Somados à isso, são muitas as reclamações da falta de repasses de verbas por parte da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) para os hospitais em todo o território baiano, o que agrava ainda mais o momento das falas do governador. Com essas informações em mente, seria moralmente e administrativamente correto incentivar a realização de uma prática que inevitavelmente traria ainda mais consequências à um sistema cada vez mais fragilizado como o da saúde pública baiana? Muitos acreditam que não. Que independente de se criar um ambiente controlado, a maioria dos praticantes ainda iria continuar sem usar os equipamentos de proteção necessários. E mais, a medida iria  possivelmente acabar incentivando o ato criminoso em vias públicas, como já é feito atualmente. 


Ilustração de acidente de moto em via pública. Imagem: Gerada por IA/ CSFM

Vale ressaltar que a prática de grau e demais manobras arriscadas é crime, tipificado no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), no artigo 175. Transformar o ato em modalidade esportiva, pode, na prática, significar a ampliação de uma demanda já sobrecarregada de atendimentos hospitalares em um sistema que vem sofrendo inúmeros problemas estruturais, operacionais e financeiros nos últimos anos. Isso, sem contar no inevitável incentivo que ocorrerá em crianças e adolescentes, que muitas vezes terão as ruas como único meio de praticar a atividade, como já acontece com esportes como ciclismo, futebol, skate etc.

Já em relação aos ditos paredões de som, o governador também defendeu que o ato seja realizado em locais apropriados. Contudo, a realidade mostra que o problema não está apenas relacionado ao volume sonoro destes eventos ou locais de realização. Essas festas, mesmo se forem realizadas em áreas mais afastadas, continuariam sendo marcadas por registros de violência, assassinatos, brigas e uso de drogas indiscriminadamente. Ou até mesmo teriam os seus índices aumentados com a medida proposta por Rodrigues, já ques estariam localizados em locais ermos.


Paredão de som. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais
 
A regulamentação do espaço pode até organizar a parte estrutural da coisa, mas dificilmente mudaria o cenário que acompanha esses eventos e os seus frequentadores. Pelo contrário, daria ainda mais certeza de impunidade para os crimes cometidos, pois o acobertamento de tais atividades seria ainda mais fácil por se tratar de localidades mais afastadas.

O ponto central para Jerônimo, veementemente discordado por muitos, é garantir que ao condicionar os paredões de som e o grau à áreas não urbanas, bairros residenciais ou estradas,  evitaria riscos à população e impactos no trânsito, mas a realidade é que a medida, por trás dos panos, permitiria a cooptação de votos desses públicos, coincidentemente, às vésperas de ano eleitoral.

Permanece então a dúvida se esse é o momento adequado para priorizar tais regulamentações. A sugestão do governador da Bahia pode soar muito mais como uma busca por votos dessas pessoas, que são inegavelmente uma boa parcela da população, do que de fato uma genuína preocupação com as causas, consequências e situações dessas práticas e de seus praticantes.

 

Da Redação Vale FM e Costa Sul FM







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