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29/07/2025 15:10

A imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, anunciada pelo presidente Donald Trump e com início marcado para esta sexta-feira (1º), tem colocado o Brasil em uma situação delicada no cenário internacional. Embora a princípio os consumidores brasileiros possam enxergar uma redução temporária nos preços internos, o impacto real e duradouro será outro: a queda expressiva nas exportações brasileiras, que movimentam bilhões de reais por ano, e o enfraquecimento da balança comercial do país.

Apesar da gravidade do cenário, o governo federal tem adotado um discurso que, para muitos, foge da responsabilidade direta que a situação exige. Autoridades e especialistas criticam a falta de uma reação diplomática à altura e apontam que o presidente Lula parece mais preocupado com questões políticas internas do que com uma articulação sólida para defender os interesses econômicos do país.

Durante evento realizado pela XP, os governadores Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr. (PR) foram aplaudidos ao condenar a postura do Planalto diante da crise comercial. Segundo eles, falta clareza, estratégia e disposição para o diálogo direto com os Estados Unidos.

“O governo não sabe onde quer chegar”, disse Ratinho Jr. “O tarifaço é um problema global e exige postura adulta e pragmática. O Brasil se vitimiza demais”, completou. Já Tarcísio declarou que Lula “não tem interlocução” com os EUA e lamentou que governadores estejam assumindo um papel que deveria ser liderado pelo Executivo federal.

Ronaldo Caiado também foi incisivo: “Nós, governadores, estamos sofrendo por uma irresponsabilidade do Lula. Não fomos consultados. Ele não mandou ninguém negociar. O Itamaraty virou uma instituição ideologizada”.

A falta de envolvimento direto de Lula nas tratativas foi também alvo de avaliação técnica. Roberto Dumas, professor do Insper, criticou a ausência de uma ligação entre os chefes de Estado, considerando que o Brasil deveria dialogar diretamente com Donald Trump. “Enquanto Lula foca em discursos para a base, Alckmin é quem está tentando negociar. Isso prejudica nossa posição como país”, afirmou.

Para Dumas, o governo parece mais interessado em manter uma narrativa de defesa da soberania e de enfrentamento político do que em garantir resultados concretos para o setor produtivo. “Não estou vendo interesse real do presidente em ligar para Trump. O foco parece estar na reeleição, não na resolução do problema”, completou.

Além da estagnação diplomática, a ameaça de desindustrialização também entra no radar como uma das consequências mais preocupantes do tarifaço. A Taurus, maior fabricante de armas do Brasil, anunciou que poderá transferir sua produção para os Estados Unidos caso as sobretaxas de fato entrem em vigor. A medida colocaria em risco cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos no país. Segundo o presidente da empresa, Salesio Nuhs, a nova tarifa inviabilizaria a continuidade das operações no Brasil, já que aproximadamente 60% da produção é destinada ao mercado norte-americano.

Nos bastidores, o presidente Lula tenta reverter a situação. Nesta segunda-feira (28), ele voltou a pedir diálogo direto com Donald Trump, afirmando que, no mundo civilizado, divergências devem ser resolvidas à mesa. O apelo ocorre a apenas quatro dias da entrada em vigor das tarifas. Em sua declaração, Lula criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro, que admitiu ter participado de articulações com a Casa Branca. O presidente classificou como “falta de patriotismo” a postura dos que atuam, segundo ele, contra os interesses do Brasil.

Mesmo com essa lacuna no alto escalão, há esforços pontuais para mitigar os efeitos do tarifaço. O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, afirmou ter tido uma “longa e proveitosa” conversa com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick. No entanto, ele evitou dar detalhes do encontro.

“Colocamos todos os pontos e reforçamos o interesse do Brasil. Nosso objetivo é resolver o problema sem contaminação política ou ideológica”, disse Alckmin.

Dentro da comitiva brasileira nos EUA, que tenta articulações com parlamentares democratas e republicanos, o senador Esperidião Amin (PP-SC) foi direto: “É dever do presidente Lula conversar com Trump. Ele não precisa fazer o que gosta, precisa fazer o que deve. É uma questão de ética da responsabilidade”.

Ao mesmo tempo em que alguns membros do governo tentam estabelecer pontes, outros discursos soam como um desvio de foco. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que o impasse nas negociações se deve à interferência da família Bolsonaro. “Quem está obstruindo esse canal de negociação é a família Bolsonaro e seus apoiadores. Saiam do caminho e deixem o governo negociar”, disse, em entrevista à Rádio Itatiaia.

A fala de Haddad gerou desconforto ao sugerir que um ex-presidente investigado e seus aliados teriam mais força sobre o cenário internacional do que o próprio presidente da República. Para críticos, isso expõe a fragilidade do governo federal em assumir protagonismo e responsabilidade nas negociações.

Faltando poucos dias para que as tarifas entrem em vigor, nesta sexta-feira, 1º de agosto, a realidade é que não houve até o momento nenhum contato direto entre Lula e Donald Trump. A diplomacia parlamentar, embora relevante, não substitui a necessidade de diálogo entre os líderes dos países.

No Planalto, o discurso é de que o Brasil está aberto a negociar, mas que não abrirá mão de princípios que possam ser interpretados como submissão. Ainda assim, cresce a pressão para que Lula atue como chefe de Estado e não apenas como líder partidário.

Sem esse contato, o risco de prejuízos severos à economia nacional se torna ainda mais iminente. O que está em jogo não é apenas uma questão diplomática, mas empregos, investimentos e a estabilidade de setores inteiros da produção brasileira, como o suco de laranja, carne bovina, aço e café. O tempo corre, e o Brasil ainda espera um gesto que sinalize que o interesse nacional está, de fato, acima das disputas políticas.

Redação: Vale FM







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