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02/10/2026 15:30

Segundo o governo, a eventual incorporação poderá custar cerca de R$ 1,5 bilhão por ano.

A proposta do Ministério da Saúde de levar as chamadas “canetas emagrecedoras” para o Sistema Único de Saúde (SUS) está sendo apresentada como uma forma de ampliar o tratamento da obesidade, mas a medida também levanta questionamentos sobre segurança, acompanhamento médico e o custo de manter pacientes em tratamento por longos períodos.

O Ministério da Saúde formalizou junto à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) um pedido para avaliar a inclusão desses medicamentos na rede pública. A iniciativa ganhou força após a redução dos preços e o aumento da oferta no mercado. Segundo o governo, a eventual incorporação poderá custar cerca de R$ 1,5 bilhão por ano.

O problema é que a discussão não pode se limitar ao preço da caneta. Medicamentos como semaglutida e liraglutida atuam diretamente em mecanismos metabólicos e precisam de indicação médica, acompanhamento e controle dos efeitos adversos.


Pancreatite está entre os principais riscos


A própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta sobre o risco de pancreatite aguda associado aos medicamentos agonistas do receptor GLP-1. A doença provoca inflamação do pâncreas e pode evoluir para quadros graves e potencialmente fatais.

Entre 2020 e dezembro de 2025, a Anvisa recebeu 145 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados a esses medicamentos no Brasil, incluindo seis casos com desfecho de óbito. A agência ressalta que essas notificações não comprovam, isoladamente, que os medicamentos tenham causado as mortes.

O alerta também destaca os riscos do uso fora das indicações aprovadas, em doses inadequadas ou sem acompanhamento profissional.


Imagem de um exame onde a Pancreatite é identificada. Imagem: Ilustrativa


Perder peso não significa perder apenas gordura


Estudos também apontam que parte do peso eliminado durante o tratamento pode corresponder à massa muscular. Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou redução significativa de massa magra entre usuários de agonistas de GLP-1.

Por isso, especialistas destacam a importância de alimentação adequada, ingestão suficiente de proteínas e principalmente exercícios de resistência durante o tratamento.

Outro estudo, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), mostrou que participantes que interromperam a semaglutida recuperaram parte do peso perdido. O resultado levanta uma questão importante para o SUS: por quanto tempo o governo terá de fornecer o medicamento para cada paciente?

O custo, portanto, não envolve apenas a compra das canetas. Também inclui consultas, exames, acompanhamento nutricional, monitoramento de efeitos adversos e a eventual necessidade de tratamento prolongado.


Mais acesso também exige mais controle

Desde 2025, a Anvisa passou a exigir retenção de receita para a venda dos agonistas de GLP-1 nas farmácias, diante do aumento do consumo e das preocupações com o uso inadequado.

Agora, enquanto a autoridade sanitária amplia o controle sobre esses medicamentos, o governo discute aumentar o acesso por meio do SUS. Contudo, não basta entregar a caneta. É necessário definir quem poderá recebê-la, quais exames serão exigidos, como os pacientes serão acompanhados e como serão identificados efeitos adversos e muitas vezes fatais como a pancreatite.


Uma decisão que também precisa ser questionada

A proposta é anunciada em um ano eleitoral e possui forte apelo popular. Isso não comprova que tenha finalidade eleitoral, mas torna legítimo questionar se a velocidade do anúncio está acompanhada de planejamento suficiente sobre segurança, critérios de indicação e financiamento de longo prazo.

A Conitec ainda precisa avaliar evidências científicas, segurança, efetividade e impacto econômico da incorporação.

A obesidade é uma doença crônica e complexa, e seu tratamento não pode depender exclusivamente de medicamentos. Se as canetas forem incorporadas ao SUS, o resultado deverá ser avaliado não apenas pela quantidade distribuída ou pelos quilos perdidos, mas também pela segurança dos pacientes, pela manutenção dos resultados e pelo custo da política ao longo dos anos.

Uma caneta mais barata não significa necessariamente um tratamento mais barato ou mais seguro. Diante dos riscos já identificados, especialmente a possibilidade de pancreatite aguda grave, o governo terá de demonstrar como pretende ampliar o acesso sem ampliar também o uso inadequado desses medicamentos. E, em outra esfera, analisar se a medida de fato está acima de outros problemas já enfrentados pelo Sistema Único de Saúde brasileiro.

 

Da Redação CSFM
Fontes: Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); Journal of the American Medical Association (JAMA); estudos clínicos sobre semaglutida e agonistas do receptor GLP-1.







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